quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Garoa

Andar com guarda-chuva é muito fácil.

Você coloca-o acima da cabeça, segura firme com uma mão e faz seus pés continuarem em frente. Seus olhos podendo perfeitamente admirar a chuva e observar as pessoas correndo e as outras andando. Quando você entra nos lugares está perfeita e irritantemente composto. E quando sai deles continua, perfeita e irritantemente composto.

Até que alguém esbarra em você. E quando o guarda-chuva cai, você percebe o quanto a chuva é boa. Ela oferece a mão, como compensação. Leva-te e pergunta aonde vai. Mas aonde você estava indo mesmo? Oras, alguns não dizem que o caminho é mais importante que o destino?

E você espera que o caminho e a chuva durem mais que o Dilúvio. Porque os dez dias que faltam para se igualar a ele parecem pouco. O que você responde a ela? Palavra nenhuma satisfaz, frase nenhuma é suficiente.

Para o poeta, o contador de histórias, o escritor, esta é a maior das torturas: não saber falar sobre o que mais se deseja.

 
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sentir e falar

Não gosto de fazer promessas de longo prazo. Mal sei como estarei no final do dia. Quem dirá no final da vida!? Promessas podem se tornar facilmente reles mentiras, esquecidas ao relento ou guardadas num baú. Promessas exigem muito mais tempo do seu pensar, exigem mais solenidade no seu falar e, ainda assim, causam mais efeitos do que você espera.

Eu não prometo futuro. Eu não acredito que ele esteja nas estrelas ou nas cartas. Ele é o sujeito oculto da frase nova. Nunca consegui cumprimenta-lo. Além do mais, toda vez que corria ao seu alcance, ele me jogava o presente. Presente por vezes bom e por vezes mal. De choro e lágrimas que formam o rio da partida das minhas esperanças. De sorrisos melados e riso alto do vento, da brisa, das minhas alegrias. E o futuro se escondia lá no horizonte, presente e invisível. Não, eu não prometo alguém que eu não conheço.

Porém, prometo o presente, pois este eu bem conheço. Um velho amigo meu, salpicado em brilhos e sombras de festa.

sábado, 25 de agosto de 2012

O poder de uma estante

Por curiosidade, por acaso, por recomendação, por obrigação. Não há apenas um motivo, mas também não é por todos.

Você põe um pé a frente, dando o primeiro passo. Passa entre as muralhas de possibilidades. Saboreia cada esquina inesperada e tenta, talvez com sucesso ou talvez bem longe dele, se manter reto. Tenta, mas gosta de saborear seu estado perdido. Como uma borboleta que, mesmo sabendo da morte próxima à luz, caminha até ela.

E passa por ela maravilhado. Maravilhado por se sentir como depois de um banho quente e uma boa refeição: satisfeito, de mente clara e pronto para construir seus próprios muros, colocar suas próprias armadilhas.

Você não entendeu bem a viagem, mas realmente não importa. Não importa o que a viagem é ou de onde veio ou por que você a encontrou. O importante é que você a viu e isso o transformou. Não é o mesmo que entrou e não fará mais as coisas como antes quando sair. Ainda que essa mudança seja sutil demais para olhos alheios. Ou para os seus próprios.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Férias: relaxando no seu cantinho

Diz-me quem não gostaria de poder sempre ficar como este gatinho: tranquilo em um lugar inusitado, mas confortável para se tornar o seu cantinho. O bercinho do seu coração.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quadros: quais deles são a verdadeira arte?

Quero todo calor que você pode dar para me afastar deste frio, uma vez que estar sozinha é diferente de se sentir só. Quero o mel das suas flores banhadas por este sol prestes a dormir.  Você não está presente, mas deixou aqui seus fantasmas. Um fantasma é uma sombra, uma penumbra qualquer de você. Não podemos nos tornar vívidos se você não é visível para este céu. Um fantasma só tem poder quando aliado ao quadro do qual foi arrancado, como um pedaço vagamente esquecido das bordas. Ninguém possui moldura, pois se pinta e é pintado a cada segundo. Você também não irá conseguir emoldurar-se. Venha então, devolva o brilho do fantasma que eu posso ser. Nem tudo que é deixado para trás é ruim e minha partida foi um triste erro seu. Você chora, só para fazer as gotas refletirem a luz da estrela que se cobre pelo chão. Torne este lugar aconchegante e envolva-nos, não posso voltar a ti, mas posso renovar-te. Eu já tenho a tinta, dê-me o pincel.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Igualdade e Semelhança

            Não era velho. Era novo. Pelo menos para mim, mas poderia dizer que estava bem conservado. Uma placa na frente indicava com orgulho que os espelhos foram comprados no final do ano passado. A casa atraiu-me, talvez por minha ilusão, talvez por sua verdade. A noite estava aconchegante e suave, feliz em seus mil brilhos de festa. E aquela atração parecia o local perfeito para as próximas risadas. Então comprei um ingresso e entrei.

           Olhei as facetas de mim mesma e o medo foi patético. Um arranhar irritante no peito. Medo dos reflexos distorcidos e coloridos, tão surrealmente reais. Eu tinha receio das imagens parecidas tão bem misturadas com partes que não deveriam ser. Ou era apenas para mim que era estranho. Tinha receio dos rostos que conhecia tão bem os defeitos e daqueles que conhecia tão bem as fraquezas. Tinha receio do reflexo perfeito, o qual tão poucas vezes vi. E até com outros frequentadores me espantei.
 A sensação não era de vertigem, mas de psicose. A loucura é fresca e leve. Como uma chuva de perfume. Mas o ambiente é enjoativamente doce, de ar pesado. Passeando por entre os fios de meus cabelos sem que eu percebesse, como dedos indesejados.
 Porém, para todos, estas facetas são normais e este é mais um momento. Acho que sou apenas detalhista demais. Só espero que na saída, a noite continue aconchegante.