Quando a luz dissipou-se, ali permaneceu. Segundos ou
minutos, não era informação importante, e a luz volta. Mais alguns passos, mais
terra pisada. E a luz volta a sumir, desta vez para nunca mais voltar diante
dos olhos azuis ou vermelhos. Ali permaneceu.
- Venha cá. – a voz sai da campina, dolce como caramelo aveludado.
Os passos não hesitam, além do mais, se encontram em estado
automático. Mas os olhos (ah, os olhos) agora estão curiosos. Voltam-se para a
figura e, por um momento, acham que veem um quadro. A distinção veio quando não
encontraram moldura. Mas a figura ali presente parceria uma obra prima,
daquelas vistas em museus e casas nobres. Estava bem vestido, a roupa um pouco
amassada e suja de galhos devido a sua acomodação no chão. Os cabelos eram da
cor de castanhas e os olhos eram de um amendoado quase rubro. Ao vê-lo
conflitava-se a ideia de menino e homem, resultando num impasse.
- Estás perdida, pequena?
Ah, olhos, neles o que já estava seco volta a molhar-se.
Mais rápido do que deveria, lá estavam os braços para abraçar-lhe. Mais suaves
do que em qualquer outro momento, tamanho esforço para tal aplicavam.
- Venha, durma um pouco.
E deixando-a aninhada, esperou que caísse no sono. E quando
esta primeira façanha realizou, um peso foi tirado de seus ombros. Agora a
havia acalmado e ela descançaria (torcia para que não tivesse maus sonhos).
Olhou para o céu, para o tempero das estrelas e decidiu contar uma história
para luz que fracassadamente se escondia.
“ Perdido no fogo
Um dia as pessoas crescem e com o Príncipe de Paus não fora
diferente. O garotinho que tão silenciosamente perambulava no castelo da Rainha
de Copas agora aprendera a silenciosamente andar na grama, assustando o pobre
homem que cuidava dos pôneis e dos cavalos. Não, ele não iria nem queria
tornar-se um verdadeiro homem, não ainda. Mas achava que já não lhe cabia bem
andar sobre pôneis. Um cavalo parecia-lhe mais apropriado.
E foi exatamente isso que pediu ao senhor, com seu jeito calmo
e solene de sempre. Este o atendeu prontamente, mas suspeitoso. Desde sempre,
aquele ar tranquilo do Príncipe o assustava, principalmente seu olhar
extremamente atencioso e suas falas, estranhamente com a melhor combinação
possível de palavras. De cabeça abaixada, perguntou-lhe:
- Vossa Majestade já aprendeu a andar de cavalo?
- Não. Gostaria de teus ensinamentos, se tal pausa não
atrapalhar-te.
- Com toda certeza, uma pausa para vós não seria de incomodo
nem para mim nem para meu serviço.
- Pois bem, comesses então.
Assim, o senhor o ensinou desde a subir no animal a saltar
por canteiros. Obviamente não tudo no mesmo dia, mas distribuído de forma que
não causasse cansaço nem ao cavalo nem ao cavaleiro. Os ensinamentos foram tão
cautelosos, detalhados e bem acompanhados que o Príncipe tornava-se um exímio
cavaleiro, conhecido e reconhecido no reino e talvez até mesmo em algumas
terras vizinhas.
Foi numa tarde qualquer, sob o crepúsculo, que o som de
relinchos se fez ouvir. Quando chegaram no estábulo, eficazes e rápidos, os
guardas salvaram os cavalos, mas a construção já estava precária demais. Não
pode ser salva e foi consumida pelas labaredas. O Príncipe, olhando-as lembra
de uma noite e de uma história, a qual também tinha chamas. Percebe que ali sua
inocência irá esvair-se, quando olha ao redor e não encontra seu cavalo, o mais
raro e puro de todos no castelo.”
- Disseram que o príncipe desistiu de achar o cavalo, mas
ele não só começou como continuou tentando, sem a ajuda do senhor que o
ensinara. – diz a luz atrás de uma árvore.
- Pediu-me que cuidasse dela, mas como farei tal? Disse que
foras a criança mais pura de coração que encontraste, mas o mesmo foi perdido
pras chamas. O que devo então fazer? Tentar recuperar este estado? Ou fazê-la
conhecer os ensinamentos que a ajudarão a sobreviver sozinha?
- Apenas cuide dela. Leve-a para onde possa encontrar um
pouco de paz. Mostre que não está sozinha, é disso que sua alma necessita.
- Não me ajudarás realmente daqui em diante, mesmo sendo
você quem pediu-me para cuidar dela?
- Como já disse-te não posso acompanhar alguém sem coração
puro. Mal consigo falar com tu neste momento. Foi a boa pessoa mais próxima que
encontrei para entrega-la.
- A mim? Um vampiro sanguinário? Tens certeza desta escolha?
- Bebes sangue, mas nem por isso deixa de ser bom. Tanto eu
como tu sabemos disto. Não tenha medo de deixar este lado a tanto adormecido
acordar.
E a luz some, deixando os dois indivíduos no meio da
floresta.

