sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pedidos a fadas - as crianças, as amantes e as mães que moram na floresta

Qualquer resquício de fogo havia ficado para trás. E junto com ele ficara o pânico e a tormenta. Nos olhos claros sobrou a vermelhidão seca, na garganta, o nó e nos pés, os calos. Poderiam ter sido horas ou dias, já não importava mais. Pensar não era algo exercido pela mente no momento. Na frente uma luz difusa funcionava como farol para o barco sem rumo, que um dia carregara tanta fantasia. Agora ele havia sido abandonado pela razão, a qual deixou apenas o gesto automático do andar.

Quando a luz dissipou-se, ali permaneceu. Segundos ou minutos, não era informação importante, e a luz volta. Mais alguns passos, mais terra pisada. E a luz volta a sumir, desta vez para nunca mais voltar diante dos olhos azuis ou vermelhos. Ali permaneceu.

- Venha cá. – a voz sai da campina, dolce como caramelo aveludado.

Os passos não hesitam, além do mais, se encontram em estado automático. Mas os olhos (ah, os olhos) agora estão curiosos. Voltam-se para a figura e, por um momento, acham que veem um quadro. A distinção veio quando não encontraram moldura. Mas a figura ali presente parceria uma obra prima, daquelas vistas em museus e casas nobres. Estava bem vestido, a roupa um pouco amassada e suja de galhos devido a sua acomodação no chão. Os cabelos eram da cor de castanhas e os olhos eram de um amendoado quase rubro. Ao vê-lo conflitava-se a ideia de menino e homem, resultando num impasse.

- Estás perdida, pequena?

Ah, olhos, neles o que já estava seco volta a molhar-se. Mais rápido do que deveria, lá estavam os braços para abraçar-lhe. Mais suaves do que em qualquer outro momento, tamanho esforço para tal aplicavam.

- Venha, durma um pouco.

E deixando-a aninhada, esperou que caísse no sono. E quando esta primeira façanha realizou, um peso foi tirado de seus ombros. Agora a havia acalmado e ela descançaria (torcia para que não tivesse maus sonhos). Olhou para o céu, para o tempero das estrelas e decidiu contar uma história para luz que fracassadamente se escondia.

                                                                     Perdido no fogo

Um dia as pessoas crescem e com o Príncipe de Paus não fora diferente. O garotinho que tão silenciosamente perambulava no castelo da Rainha de Copas agora aprendera a silenciosamente andar na grama, assustando o pobre homem que cuidava dos pôneis e dos cavalos. Não, ele não iria nem queria tornar-se um verdadeiro homem, não ainda. Mas achava que já não lhe cabia bem andar sobre pôneis. Um cavalo parecia-lhe mais apropriado.

E foi exatamente isso que pediu ao senhor, com seu jeito calmo e solene de sempre. Este o atendeu prontamente, mas suspeitoso. Desde sempre, aquele ar tranquilo do Príncipe o assustava, principalmente seu olhar extremamente atencioso e suas falas, estranhamente com a melhor combinação possível de palavras. De cabeça abaixada, perguntou-lhe:

- Vossa Majestade já aprendeu a andar de cavalo?

- Não. Gostaria de teus ensinamentos, se tal pausa não atrapalhar-te.

- Com toda certeza, uma pausa para vós não seria de incomodo nem para mim nem para meu serviço.

- Pois bem, comesses então.

Assim, o senhor o ensinou desde a subir no animal a saltar por canteiros. Obviamente não tudo no mesmo dia, mas distribuído de forma que não causasse cansaço nem ao cavalo nem ao cavaleiro. Os ensinamentos foram tão cautelosos, detalhados e bem acompanhados que o Príncipe tornava-se um exímio cavaleiro, conhecido e reconhecido no reino e talvez até mesmo em algumas terras vizinhas.

Foi numa tarde qualquer, sob o crepúsculo, que o som de relinchos se fez ouvir. Quando chegaram no estábulo, eficazes e rápidos, os guardas salvaram os cavalos, mas a construção já estava precária demais. Não pode ser salva e foi consumida pelas labaredas. O Príncipe, olhando-as lembra de uma noite e de uma história, a qual também tinha chamas. Percebe que ali sua inocência irá esvair-se, quando olha ao redor e não encontra seu cavalo, o mais raro e puro de todos no castelo.” 

- Disseram que o príncipe desistiu de achar o cavalo, mas ele não só começou como continuou tentando, sem a ajuda do senhor que o ensinara. – diz a luz atrás de uma árvore.

- Pediu-me que cuidasse dela, mas como farei tal? Disse que foras a criança mais pura de coração que encontraste, mas o mesmo foi perdido pras chamas. O que devo então fazer? Tentar recuperar este estado? Ou fazê-la conhecer os ensinamentos que a ajudarão a sobreviver sozinha?

- Apenas cuide dela. Leve-a para onde possa encontrar um pouco de paz. Mostre que não está sozinha, é disso que sua alma necessita.

- Não me ajudarás realmente daqui em diante, mesmo sendo você quem pediu-me para cuidar dela?

- Como já disse-te não posso acompanhar alguém sem coração puro. Mal consigo falar com tu neste momento. Foi a boa pessoa mais próxima que encontrei para entrega-la.

- A mim? Um vampiro sanguinário? Tens certeza desta escolha?

- Bebes sangue, mas nem por isso deixa de ser bom. Tanto eu como tu sabemos disto. Não tenha medo de deixar este lado a tanto adormecido acordar.

E a luz some, deixando os dois indivíduos no meio da floresta.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Garoa

Andar com guarda-chuva é muito fácil.

Você coloca-o acima da cabeça, segura firme com uma mão e faz seus pés continuarem em frente. Seus olhos podendo perfeitamente admirar a chuva e observar as pessoas correndo e as outras andando. Quando você entra nos lugares está perfeita e irritantemente composto. E quando sai deles continua, perfeita e irritantemente composto.

Até que alguém esbarra em você. E quando o guarda-chuva cai, você percebe o quanto a chuva é boa. Ela oferece a mão, como compensação. Leva-te e pergunta aonde vai. Mas aonde você estava indo mesmo? Oras, alguns não dizem que o caminho é mais importante que o destino?

E você espera que o caminho e a chuva durem mais que o Dilúvio. Porque os dez dias que faltam para se igualar a ele parecem pouco. O que você responde a ela? Palavra nenhuma satisfaz, frase nenhuma é suficiente.

Para o poeta, o contador de histórias, o escritor, esta é a maior das torturas: não saber falar sobre o que mais se deseja.