sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Na despreocupada caminhada você encontra um papel no ar


"Eu não devia estar escrevendo isso. Esta reles personagem que, como as outras, busca o mar, mas que como a maioria, nunca o viu. Bom para o simples iletrado que não lerá minha voz grafada.

Hoje, caminhando pelas ruas (que você talvez já tenha uma ideia das quais frequento) encontrei uma sombra na esquina.  Sombras são a poluição que não nos permite ver o cristalino da poça, que não nos permite pular nas mesmas com a inocência (e talvez ignorância) da menina dos olhos. Vejo a mancha rubra ironicamente perto do poste de luz, contente em se mostrar só para depois sumir.

Desconfiada e lotada de armas invisíveis caminho bamba e olho para cima, observando o fogo (por vezes tão tentador). Quente e forte, mas longe. Agarrei o poste com as mãos, sentindo seus adornos e olhando ao redor.

E quando minha pele foi envolvida, arrepiou-se, enojada pela cólera que a tocava. Violante e violentamente invadindo o pensamento através do corpo, sem medo ou hesitação. Monstruosa possuidora sedenta. Sem respeito, sem limites.

Mate-a, pensei. E impulsionada fui, para cortar sua garganta, retirar-lhe a voz. E torno-me eu, assustada e desgraçada rouca. Sem medo e esperando a tortura - perdão, o inverso.

Eu agora sou do abandonado beco uma presença que se esvai. E rouca, só posso escrever com o que resta de meu físico, ainda que sinta a falta de uma letra e um ponto.

Desculpas a você, ao qual o vento trouxe esta lástima. Pode esquecer-me novamente na brisa. Ainda acredito que pelo menos a mesma seja pura."

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Pedidos a fadas - as crianças, as amantes e as mães que moram na floresta

Qualquer resquício de fogo havia ficado para trás. E junto com ele ficara o pânico e a tormenta. Nos olhos claros sobrou a vermelhidão seca, na garganta, o nó e nos pés, os calos. Poderiam ter sido horas ou dias, já não importava mais. Pensar não era algo exercido pela mente no momento. Na frente uma luz difusa funcionava como farol para o barco sem rumo, que um dia carregara tanta fantasia. Agora ele havia sido abandonado pela razão, a qual deixou apenas o gesto automático do andar.

Quando a luz dissipou-se, ali permaneceu. Segundos ou minutos, não era informação importante, e a luz volta. Mais alguns passos, mais terra pisada. E a luz volta a sumir, desta vez para nunca mais voltar diante dos olhos azuis ou vermelhos. Ali permaneceu.

- Venha cá. – a voz sai da campina, dolce como caramelo aveludado.

Os passos não hesitam, além do mais, se encontram em estado automático. Mas os olhos (ah, os olhos) agora estão curiosos. Voltam-se para a figura e, por um momento, acham que veem um quadro. A distinção veio quando não encontraram moldura. Mas a figura ali presente parceria uma obra prima, daquelas vistas em museus e casas nobres. Estava bem vestido, a roupa um pouco amassada e suja de galhos devido a sua acomodação no chão. Os cabelos eram da cor de castanhas e os olhos eram de um amendoado quase rubro. Ao vê-lo conflitava-se a ideia de menino e homem, resultando num impasse.

- Estás perdida, pequena?

Ah, olhos, neles o que já estava seco volta a molhar-se. Mais rápido do que deveria, lá estavam os braços para abraçar-lhe. Mais suaves do que em qualquer outro momento, tamanho esforço para tal aplicavam.

- Venha, durma um pouco.

E deixando-a aninhada, esperou que caísse no sono. E quando esta primeira façanha realizou, um peso foi tirado de seus ombros. Agora a havia acalmado e ela descançaria (torcia para que não tivesse maus sonhos). Olhou para o céu, para o tempero das estrelas e decidiu contar uma história para luz que fracassadamente se escondia.

                                                                     Perdido no fogo

Um dia as pessoas crescem e com o Príncipe de Paus não fora diferente. O garotinho que tão silenciosamente perambulava no castelo da Rainha de Copas agora aprendera a silenciosamente andar na grama, assustando o pobre homem que cuidava dos pôneis e dos cavalos. Não, ele não iria nem queria tornar-se um verdadeiro homem, não ainda. Mas achava que já não lhe cabia bem andar sobre pôneis. Um cavalo parecia-lhe mais apropriado.

E foi exatamente isso que pediu ao senhor, com seu jeito calmo e solene de sempre. Este o atendeu prontamente, mas suspeitoso. Desde sempre, aquele ar tranquilo do Príncipe o assustava, principalmente seu olhar extremamente atencioso e suas falas, estranhamente com a melhor combinação possível de palavras. De cabeça abaixada, perguntou-lhe:

- Vossa Majestade já aprendeu a andar de cavalo?

- Não. Gostaria de teus ensinamentos, se tal pausa não atrapalhar-te.

- Com toda certeza, uma pausa para vós não seria de incomodo nem para mim nem para meu serviço.

- Pois bem, comesses então.

Assim, o senhor o ensinou desde a subir no animal a saltar por canteiros. Obviamente não tudo no mesmo dia, mas distribuído de forma que não causasse cansaço nem ao cavalo nem ao cavaleiro. Os ensinamentos foram tão cautelosos, detalhados e bem acompanhados que o Príncipe tornava-se um exímio cavaleiro, conhecido e reconhecido no reino e talvez até mesmo em algumas terras vizinhas.

Foi numa tarde qualquer, sob o crepúsculo, que o som de relinchos se fez ouvir. Quando chegaram no estábulo, eficazes e rápidos, os guardas salvaram os cavalos, mas a construção já estava precária demais. Não pode ser salva e foi consumida pelas labaredas. O Príncipe, olhando-as lembra de uma noite e de uma história, a qual também tinha chamas. Percebe que ali sua inocência irá esvair-se, quando olha ao redor e não encontra seu cavalo, o mais raro e puro de todos no castelo.” 

- Disseram que o príncipe desistiu de achar o cavalo, mas ele não só começou como continuou tentando, sem a ajuda do senhor que o ensinara. – diz a luz atrás de uma árvore.

- Pediu-me que cuidasse dela, mas como farei tal? Disse que foras a criança mais pura de coração que encontraste, mas o mesmo foi perdido pras chamas. O que devo então fazer? Tentar recuperar este estado? Ou fazê-la conhecer os ensinamentos que a ajudarão a sobreviver sozinha?

- Apenas cuide dela. Leve-a para onde possa encontrar um pouco de paz. Mostre que não está sozinha, é disso que sua alma necessita.

- Não me ajudarás realmente daqui em diante, mesmo sendo você quem pediu-me para cuidar dela?

- Como já disse-te não posso acompanhar alguém sem coração puro. Mal consigo falar com tu neste momento. Foi a boa pessoa mais próxima que encontrei para entrega-la.

- A mim? Um vampiro sanguinário? Tens certeza desta escolha?

- Bebes sangue, mas nem por isso deixa de ser bom. Tanto eu como tu sabemos disto. Não tenha medo de deixar este lado a tanto adormecido acordar.

E a luz some, deixando os dois indivíduos no meio da floresta.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Garoa

Andar com guarda-chuva é muito fácil.

Você coloca-o acima da cabeça, segura firme com uma mão e faz seus pés continuarem em frente. Seus olhos podendo perfeitamente admirar a chuva e observar as pessoas correndo e as outras andando. Quando você entra nos lugares está perfeita e irritantemente composto. E quando sai deles continua, perfeita e irritantemente composto.

Até que alguém esbarra em você. E quando o guarda-chuva cai, você percebe o quanto a chuva é boa. Ela oferece a mão, como compensação. Leva-te e pergunta aonde vai. Mas aonde você estava indo mesmo? Oras, alguns não dizem que o caminho é mais importante que o destino?

E você espera que o caminho e a chuva durem mais que o Dilúvio. Porque os dez dias que faltam para se igualar a ele parecem pouco. O que você responde a ela? Palavra nenhuma satisfaz, frase nenhuma é suficiente.

Para o poeta, o contador de histórias, o escritor, esta é a maior das torturas: não saber falar sobre o que mais se deseja.

 
 

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Sentir e falar

Não gosto de fazer promessas de longo prazo. Mal sei como estarei no final do dia. Quem dirá no final da vida!? Promessas podem se tornar facilmente reles mentiras, esquecidas ao relento ou guardadas num baú. Promessas exigem muito mais tempo do seu pensar, exigem mais solenidade no seu falar e, ainda assim, causam mais efeitos do que você espera.

Eu não prometo futuro. Eu não acredito que ele esteja nas estrelas ou nas cartas. Ele é o sujeito oculto da frase nova. Nunca consegui cumprimenta-lo. Além do mais, toda vez que corria ao seu alcance, ele me jogava o presente. Presente por vezes bom e por vezes mal. De choro e lágrimas que formam o rio da partida das minhas esperanças. De sorrisos melados e riso alto do vento, da brisa, das minhas alegrias. E o futuro se escondia lá no horizonte, presente e invisível. Não, eu não prometo alguém que eu não conheço.

Porém, prometo o presente, pois este eu bem conheço. Um velho amigo meu, salpicado em brilhos e sombras de festa.

sábado, 25 de agosto de 2012

O poder de uma estante

Por curiosidade, por acaso, por recomendação, por obrigação. Não há apenas um motivo, mas também não é por todos.

Você põe um pé a frente, dando o primeiro passo. Passa entre as muralhas de possibilidades. Saboreia cada esquina inesperada e tenta, talvez com sucesso ou talvez bem longe dele, se manter reto. Tenta, mas gosta de saborear seu estado perdido. Como uma borboleta que, mesmo sabendo da morte próxima à luz, caminha até ela.

E passa por ela maravilhado. Maravilhado por se sentir como depois de um banho quente e uma boa refeição: satisfeito, de mente clara e pronto para construir seus próprios muros, colocar suas próprias armadilhas.

Você não entendeu bem a viagem, mas realmente não importa. Não importa o que a viagem é ou de onde veio ou por que você a encontrou. O importante é que você a viu e isso o transformou. Não é o mesmo que entrou e não fará mais as coisas como antes quando sair. Ainda que essa mudança seja sutil demais para olhos alheios. Ou para os seus próprios.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Férias: relaxando no seu cantinho

Diz-me quem não gostaria de poder sempre ficar como este gatinho: tranquilo em um lugar inusitado, mas confortável para se tornar o seu cantinho. O bercinho do seu coração.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Quadros: quais deles são a verdadeira arte?

Quero todo calor que você pode dar para me afastar deste frio, uma vez que estar sozinha é diferente de se sentir só. Quero o mel das suas flores banhadas por este sol prestes a dormir.  Você não está presente, mas deixou aqui seus fantasmas. Um fantasma é uma sombra, uma penumbra qualquer de você. Não podemos nos tornar vívidos se você não é visível para este céu. Um fantasma só tem poder quando aliado ao quadro do qual foi arrancado, como um pedaço vagamente esquecido das bordas. Ninguém possui moldura, pois se pinta e é pintado a cada segundo. Você também não irá conseguir emoldurar-se. Venha então, devolva o brilho do fantasma que eu posso ser. Nem tudo que é deixado para trás é ruim e minha partida foi um triste erro seu. Você chora, só para fazer as gotas refletirem a luz da estrela que se cobre pelo chão. Torne este lugar aconchegante e envolva-nos, não posso voltar a ti, mas posso renovar-te. Eu já tenho a tinta, dê-me o pincel.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Igualdade e Semelhança

            Não era velho. Era novo. Pelo menos para mim, mas poderia dizer que estava bem conservado. Uma placa na frente indicava com orgulho que os espelhos foram comprados no final do ano passado. A casa atraiu-me, talvez por minha ilusão, talvez por sua verdade. A noite estava aconchegante e suave, feliz em seus mil brilhos de festa. E aquela atração parecia o local perfeito para as próximas risadas. Então comprei um ingresso e entrei.

           Olhei as facetas de mim mesma e o medo foi patético. Um arranhar irritante no peito. Medo dos reflexos distorcidos e coloridos, tão surrealmente reais. Eu tinha receio das imagens parecidas tão bem misturadas com partes que não deveriam ser. Ou era apenas para mim que era estranho. Tinha receio dos rostos que conhecia tão bem os defeitos e daqueles que conhecia tão bem as fraquezas. Tinha receio do reflexo perfeito, o qual tão poucas vezes vi. E até com outros frequentadores me espantei.
 A sensação não era de vertigem, mas de psicose. A loucura é fresca e leve. Como uma chuva de perfume. Mas o ambiente é enjoativamente doce, de ar pesado. Passeando por entre os fios de meus cabelos sem que eu percebesse, como dedos indesejados.
 Porém, para todos, estas facetas são normais e este é mais um momento. Acho que sou apenas detalhista demais. Só espero que na saída, a noite continue aconchegante.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Brincando com as ideias

Vocês já devem ter notado por uma das últimas postagens que em se tratando de análise de imagens eu gosto um pouquinho de colocar mais de uma ilustração sobre o mesmo tema. Simplesmente acho que esta atitude ajuda a explorar o tema, portanto temos mais um pequeno grupo de imagens a seguir.

A Coca-Cola tem um histórico de propagandas de sucesso: fato incontestável. No momento não vou discutir os meios que a levaram ao sucesso ou sua ética, mas apenas uma parte ínfima de seus anúncios.

Voltando-se para o anúncio ao lado vemos o típico traço de desenho de humanos da marca à alguns anos atrás: brancos de cabelos claros e bochechas rosadas. O uniforme do homem à direita lembra-nos uma lanchonete. O estilo remete o período de Guerra Fria, não? Algo a fim de marcar o capitalismo e a saúde, alegria e bem estar americano.
Observando sob um aspecto mais pessoal confesso que aprecio esse toque de lanchonete antiga, é um charme muito marcante na minha visão.

Na próxima vemos a Coca-Cola em uma propaganda que me fez perguntar: Quando se tem grande fama, afirmar ser um clássico só para firmar a ideia, realmente a firma? Pode parecer óbvia uma resposta afirmativa, mas na verdade não é, pelo menos não conscientemente. E inconscientemente também não, pois várias marcas já tentaram usar de afirmações parecidas, porém parece que algumas delas não têm esse poder todo na palavra não é? Então, é preciso um conjunto de ações e situações para dar ênfase à palavra.
Senti uma grande necessidade de colocar a última propaganda. Primeiramente, é um anúncio mais antigo, do começo da bebida Coca-Cola. Nota-se que o padrão de estética humana é semelhante, apesar das bochechas não serem tão rosadamente marcadas. Lembro-me então do ainda presente racismo nos EUA ainda hoje, da dificuldade da miscigenação insistente.
Novamente, sob um aspecto pessoal, gosto da pintura dos cabelos. É um trabalho lindo devido ao degradê de cores feito pela iluminação.

Presumo que ainda farei um texto aprofundado da Coca-Cola, mas, para sua felicidade ou tristeza, isto ficará para uma outra rodada.

Sonhadoramente,
Bárbara




domingo, 13 de maio de 2012

Um feliz dia das mães à todas estas rosas brancas

Mãe,
É o raio que lhe deu a vida.
Mãe,
É a canção que lhe acalma.
Mãe,
É a guia de sua senda.
Mãe,
É a amiga permanente.
Mãe,
É a rosa branca do seu jardim.
Mãe,
É o porto seguro.
Mãe,
É um nome lindo.

Mãe
Não se escolhe.

Apenas se tem,
Agradecidamente.



O poder dos papéis escritos

É triste vermos em nosso meio as situações as quais alguns precisam suportar. A fome, sede e o frio são males que há muito deveriam ter sido extintos de nossa sociedade. 

A leitura é um dos mais infalíveis meios para ampliar vocabulário, conhecimento de mundo e articular a linguagem e a escrita. É através dela que muitos indivíduos se inserem em determinados grupos da sociedade, dependendo do tipo e da frequência de leitura. Por isso é analisando os costumes de leitura que encontrarmos as características de um grupo da sociedade.

São os livros a porta para clareza de ideias e a criação de pensamentos fortes. Nem todos, porém, possuem ou podem ter esse importante hábito, permitindo a entrada da ignorância. Considero esta a segundo maior praga da humanidade, só perdendo para hipocrisia.

















A primeira charge foi retirada de http://tebloga.wordpress.comcategorychargepage2

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Histórias para pôneis, os cavalos do Príncipe de Paus


Certa noite, inquieto e pensativo, o jovem Príncipe de Paus se levanta de sua frondosa cama. Menino de não mais de dez anos, geralmente silencioso. Olhos grandes em verde profundo, cabelos lisos castanhos desbotados e geralmente trajado em cores escuras. Indecifrável. Vestiu o hobby e espiou o corredor. À muito a mãe, a Rainha de Copas, e a babá deixaram-no para que dormisse. Fato esse o qual não ocorreu, resultando na sua jornada noturna.

Com um rangido a porta do estábulo abre revelando os pôneis quietos, mas acordados. A luz suave do céu desperta um homem deitado no feno. Ao abrir os olhos, dá um pulo e se apreça em fazer uma reverencia.

- Majestade.... O que fazes tão tarde da noite em um lugar como este? – pronuncia de cabeça abaixada

- Quando o sono foge como um cavalo selvagem, buscamos ao menos o manso cochilo.

A figura pequena senta-se em um monte de feno próximo, de frente para o homem. Observa-o imóvel.

- Se não for incomodo, peço-te um favor: conte-me uma história de dormir.

- Claro vossa Majestade, não há problema algum. – declara surpreso

Cortês, põe-se a contar a melhor história de ninar que conseguia pensar. O príncipe, ainda de olhos bem abertos, preta tanta atenção a ponto de incomodar o homem. Aproveitando uma pausa no pensamento do outro, a voz infantil se faz ouvir.

- Desculpe-me a audácia de interromper. Acorre que essa audácia é triste. Não desejo ouvir uma história repleta de problemas fantasiosos e finais felizes. Desejo uma história que me faça refletir e crescer, mas que ao mesmo tempo permita a minha mente vagar em sonhos mágicos.

Desafiado, o homem se põe a pensar profundamente e recomeça a fala torcendo para conseguir alcançar o objetivo.

                                                                           Inocência Perdida

O céu estava claro, mas dava para vê-lo sem machucar os olhos, pois as copas barravam parte da luz. Barulho ao fundo, ar calmo, quente.

A mãe insistira para que saísse e brincasse, mas não havia mais graça. Desde o adoecer desta e a clara percepção do seu estado frágil e perigosamente perto da passagem, a tristeza e o medo a embalam. Corroendo aos poucos.

Talvez por isso as borboletas não se aproximem mais. E sem elas, a floresta não tem cor. A alegria doce de brincar juntas não está nem na luz, a qual agora somente parece algo necessário.

Levanta-se preocupada. Pobre do pai. Vinha cada vez mais sério e, quase sempre que estava em casa, mantinha um copo e uma garrafa por perto. Ele já devia ter chegado.

Quando entra, a cena é a mesma. A gentil empregada já havia deixado o jantar pronto e o pai comia e bebia.

Pega a bandeja de prata logo após um baixo cumprimento. Sobe e com um sorriso coloca-a na frente da mãe.

- Obrigada, meu anjo. – disse sorrindo tão calorosamente quanto no tempo em que cozinhava

Gostava de ficar com ela. Isso a animava e nesse momento insistia para que descansasse. Ficava lhe fazendo carinho até adormecê-la.

Lá em baixo, o som de vidro quebrando as fez pular. Desceu tão rapidamente quanto possível para uma humana. O coração com medo palpitando como um beija flor.

O pai esta quebrando a sala e gritando. Ou chorando em palavras ferozes talvez. Tentou segurá-lo, acalmá-lo. Em vão, obviamente, pela condição de criança.

- P... Pare – uma voz fraca sai dos lábios frágeis dela

Pálida e encostada no corrimão, seu esforço para descer e falar pouco adiantou.

- Não! Foi você que causou isso! Você está fugindo de mim!

Ele empurra a garotinha loira. Caída no chão, vê-o gritar mais alto ainda e continuar transtornado. A essa altura apenas os móveis próximos a parede estavam no mesmo lugar.

Furiosa corre até uma pequena estante que parou perto da lareira. Melhor queimar aquelas bebidas malditas, enquanto a mãe tentava pará-lo, ainda gentil. Se não podia evitar o agora, que evitasse uma repetição.

Não esperava a explosão.

Ouviu o pai chamando-a. Chamou por sua mãe. Corre em meio ao fogo adentrando a sala, mas não via nada. Pânico. Um vislumbre de porta aberta.

E lá fora o ar era fresco. E a casa que um dia fora tão bela, desaba como se fosse feita de papel.

Assustada, olha em volta. Não havia ninguém. O fogo berrante se fazia presente na noite como as adagas no peito.

Tristeza é vaga e irritante, mas não era isso que sentia. O choro que corria nas veias e as lágrimas que molhavam a terra não eram mais de uma criança. Era como se o corpo quisesse expulsar aquele sentimento, como se fosse pequeno demais para aguentar o fardo. Fazia-a tremer sem parar. Fazendo-a encolher-se mais e mais, para que pudesse sumir. Para restarem apenas as lágrimas que não apagam a chama.

O brilho dourado das borboletas chama seus olhos, cria um caminho. Uma voz chama ao fundo, macia, serena e forte.

- Venha, pequena boneca de porcelana, criada em redoma de vidro de inocências. Agora você conhece a dor e o remorso.”

As nuvens cobrem a lua como cortinas cobrem janelas. O contador de histórias não consegue dormir, a viagem foi impactante demais para seu próprio coração. No entanto, o Príncipe e seus pôneis já iniciam a jornada dos sonhos.

domingo, 8 de abril de 2012

Para este feriado

Vê o que há de belo
Vê o natural, o humano, a mistura
Inspira o ar puro
Lembra do que tu gostas
Lembra do que tu queres
Lembra do que tu eres
Recarrega as energias
Volta para luta
Deus está contigo, Ele te resgata e te salva.
O mundo não é perfeito, mas tem muita coisa boa para dar. É só você achar a graça das coisas.

 Uma ótima Páscoa a todos!  


Sonhadoramente,
Bárbara

domingo, 1 de abril de 2012

Autores

Ser um criador de significados não é algo fácil. E eu, por mais que planeje em minha obras, sei que o verdadeiro autor cria sua obra em um instante. E eu, depois de tantas tentativas não nego que as melhores frases e imagens vem apenas de um instante, quando a alma alcança o significado completo, a sabedoria natural e simples, a qual não conseguimos sempre visitar, mas que todos nós temos.

E a vida é como uma peça, na qual por mais que ensaiemos para o próximo ato, são os momentos e as pessoas inesperadas que criam a beleza das cenas e elas são a essência principal do espetáculo. Como um jovem ator, de pouco em pouco, vamos percebendo-a e aceitando-a até o momento em que passaremos a verdadeiramente usa-la e vive-la.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Do berço encantado à fotografia manchada

Qual jovem já não ouviu Renato Russo ou Caetano Veloso? Mesmo para escola, a qual apresenta a importância histórica e literária dessas músicas? Nelas vemos a poesia, a qual encobre o protesto, a vontade de mudança dos jovens da época e sua luta sofrida para acabar com a repressão, dos olhos dos censuradores. Infelizmente essa vontade foi se perdendo por entre as gerações posteriores devido à perda de esperança e a irreverencia surgiu como algo próprio das juventudes.

Hoje sabemos que a irreverencia e a intolerância não devem ser alimentadas e cultivadas. Elas não dão identidade ao jovem, mas apenas o afundam no próprio desespero do não saber o que fazer. Assim, o tornam desgraçado e uma doença que faz o futuro ser sombrio e caótico.

A vulgaridade surge então como algo moderno e totalmente contrário a “caretice”, muito mais alienado que a intolerância. Como se esta fosse a resposta da vida: abusar da libertinagem para ser feliz. Mas isso realmente traz a felicidade? O velório de alguns valores traz uma banalização de situações que antes eram consideradas “mágicas”, ou seja, transcendiam o comum do ser humano e o transportavam para um mundo de ficção encantado. Dentre essas situações se encontra a nossa música.

A despreocupação é utilizada para inibir a poesia. E então, pouco encontramos no nosso cotidiano aquela perspicácia travessa dos autores antigos. O único meio que se esforça para nos remeter esse pacote é a escola e convenhamos: Qual aluno presta total atenção a ela? Este encanto escrito e musicado deve estar presente no dia a dia, fazer-nos viajar e pensar, fugir e centralizar.

Porém admito que ao contrário da geração de “Alegria, Alegria” de Caetano Veloso, o jovem de hoje não luta contra uma concreta ditadura, mas com uma realidade triste e grosseira disfarçada de estável. Uma realidade ramificada em vários problemas intrínsecos, o que dificulta a união para erradica-los.

O mundo sempre apresentou dificuldades e agora que todas estão tão claras devido à globalização bate uma preguiça de lutar contra tanta coisa. Antes havia um objetivo: ser livre, para sair, para cantar, para escolher.  Mas se o objetivo é a pacificação, pense em quanto deve ser feito. Ver apenas o futuro e o sonho individual parece uma vertente muito mais confortável.

Vamos realmente deixar-nos levar por essa maré? Teremos força para lutar contra essa grande correnteza?


sábado, 17 de março de 2012

Atrás dos seus, dos meus óculos

Percebendo duplicidade
É que percebi duas
E acreditando ser duas
Tornei-me duas.

Uma sempre mascarando a outra.

E o que é essência?
A posse do ser do nascimento
Ou a construção própria
Daquilo que foi vivido?

Palavras

Mesmo palavras com significados fortes se tornam vãs quando usadas em excesso e banalmente.

Assim,

A palavra só tem força se alguém lhe dá tal ênfase.

Então,

Se pronunciada com crença e importância ela terá poder.

Porque para quebrar um tabu, só basta ter a coragem de falar sem medo.



O poder do crer abre portas e janelas.

Vence distancias e muros.

Pois dá energia e coragem,

Para que o corpo físico não caia

E para que a mente não entristeça.



A intuição pode muitas vezes ser mais correta que fatos.

Se você ainda não percebeu o quanto o mundo é complicado

É por que ainda se ilude com os poucos resultados

E pensa que tudo pode ser provado em cima de observações superficiais.

As respostas verdadeiras exigem palavras absurdas

As quais só loucos já viram.

E complexas navegam pirando a mente dos que não as entendem.


Talvez a verdade não seja para nós.

Talvez nós não estejamos prontos para verdade.



Assim seguimos em um mundo onde palavras

São inseguras e incertas,

Banais e tristes,

Distantes e distorcidas,

Verdadeiras e falsas,

Gentis e intensas.

Completas.  

domingo, 11 de março de 2012

Jogada Joker – Apresentação

Privaram-me dos doces contos de fadas desde criança e me sufocaram com a concreta realidade. E assim eu nunca acredite neles. Mas criei um mundo de escuridão pacífica onde sempre caem confetes, que pelo menos uma vez, podem se tornar coloridos.


Se você não entender minhas ideias tudo bem, a maioria não entende. Se você não concordar, então entre no jogo e tente me convencer do contrário. Só tente não se perder nos labirintos desse tabuleiro. 





Sonhadoramente,
Bárbara